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TI André Dourado em 26 dez 2008

Competição interna pode ajudar a descobrir talentos e levar melhores resultados para a organização

Tabu em algumas empresas, prática comum em outras, a competição interna pode ajudar a descobrir talentos e levar melhores resultados para a organização – desde que alguns fatores sejam observados

Revista Melhor
Rodolfo C. Bonventti

Faz parte da natureza humana o gosto pela disputa e não há como negar que as empresas são ambientes cada vez mais competitivos. Um estudo publicado recentemente pela psicóloga Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral (FDC), de Minas Gerais, aponta que os executivos paulistas são os mais individualistas, competitivos e menos preocupados com relacionamentos, ou seja, olham mais para suas próprias carreiras do que para as suas equipes.

As estatísticas mostram que quase um terço do tempo no trabalho é gasto com a administração de conflitos, mas, como bem disse o ex-presidente norte-americano John Kennedy, “é nos momentos de crise que eu tenho as minhas melhores idéias”. Estaria aí a solução para tornar a competição interna e a administração de conflitos entre colaboradores e equipes um dado positivo para o desenvolvimento profissional?

Para o mestre em Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e autor do livro Ética na gestão de pessoas: uma visão prática, Flávio Farah, “os sistemas competitivos são incompatíveis com o trabalho em equipe, já que a competição interna destrói a cooperação e estimula os atos imorais como a sonegação de informações, a recusa de ajuda a colegas de trabalho e até a sabotagem do trabalho alheio”. Além disso, continua Farah, ela inibe a aprendizagem e a criatividade, já que as pessoas envolvidas em uma disputa concentram fortemente sua atenção nas concorrentes e em suas reações e, assim, não têm tempo para aprender nem para imaginar novas maneiras de fazer as coisas.

Um exemplo típico de uma competição interna predadora está no filme O Sucesso a Qualquer Preço, de 1992, no qual os atores Al Pacino, Jack Lemmon, Ed Harris e Alan Arkin vivem quatro corretores de uma imobiliária de Chicago, cujo gestor, interpretado por Alec Baldwin, estabelece um concurso de vendas em que o primeiro colocado ganha um prêmio dos sonhos: um automóvel Cadillac Eldorado. Já para o segundo colocado, o prêmio estabelecido é um simples jogo de facas de churrasco e, para os outros, a rua, porque como define o gestor, “nesta empresa não há lugar para fracassados”.

Guardadas as devidas proporções, as psicólogas e executivas Ângela Sardelli e Celina Beatriz Gazeti viveram uma situação parecida anos atrás quando, juntas com outra profissional, concorreram a uma vaga de gerente para uma divisão da empresa em que atuavam. “Eu e a Celina já éramos muito amigas e foi um processo muito sofrido na época porque o nosso gestor teve um papel totalmente errôneo. Eram feitas entrevistas individuais com as três e nelas havia um incitamento claro à competição e nós nos sentíamos manipuladas”, lembra. Segundo ela, o papel correto de um gestor em uma situação dessas é o de ter maturidade e valores éticos pessoais para saber articular situações e propiciar recursos para que os seus comandados busquem melhores resultados. “Mas sem nunca partir para a manipulação e estimular o individualismo”, explica Ângela, que hoje é sócia de Celina na Vox Solutions, uma das quatro empresas que faz parte da joint venture Cliv Solution Group.

Falando em ética, para o professor Flávio Farah, do ponto de vista ético, a fixação de metas para os colaboradores nas empresas torna-se questionável quando, para o seu cumprimento, aqueles que ocupam posições de liderança na empresa estimulam o vale-tudo com exortações do tipo: “Cumpra suas metas, não importa como”; “Consiga aquele contrato de qualquer maneira”; “Faça o que for preciso para manter esse projeto dentro do orçamento”. “Ordens como essas sinalizam aos colaboradores que, para atingir objetivos, quaisquer estratégias são válidas, inclusive as que incluem o uso de meios imorais ou ilegais”, diz.

“A partir das histórias isoladas de indivíduos que realizaram coisas que pareciam impossíveis, firmou-se a crença de que o ser humano tudo pode, de que não existem limites para o homem. Essa crença, porém, não passa de um mito, pois, até hoje, ninguém foi capaz de demonstrar logicamente que, para o ser humano, tudo é possível”, argumenta Farah, que acrescenta: “Como as empresas têm o costume de fixar metas novas e mais difíceis depois que as anteriores foram cumpridas, os colaboradores enfrentam a cada momento, e sob ameaça de demissão, novos desafios cuja superação é incerta.”

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Fonte: Revista Melhor

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